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11
Jan17

Um dos aspectos mais desconcertantes da democracia é o facto de os eleitores ousarem pensar pela própria cabeça. Percebo que isto incomode alguns dos mais distintos comentadores da comunicação social portuguesa: a 22 de Janeiro último, 20,74% dos eleitores (mais precisamente 1.138.297 votos) borrifaram-se no seu parecer e deram a resposta adequada à campanha sistemática de ataques à candidatura de Manuel Alegre e à tentativa de imposição de uma bipolarização que só existia na cabeça dos seus mentores. A candidatura de Manuel Alegre resistiu às colunas de permanente ataque pessoal – muitas vezes roçando o insulto – na imprensa escrita (em média dois escribas de serviço em cada jornal) e aos comentadores residentes nas televisões (Vitorino dizia que Soares ganharia à primeira volta, o Professor Marcelo, depois de semanas a diminuir a candidatura de Manuel Alegre, acabaria por fazer o ser culpa). Os portugueses não são estúpidos, como pretendem alguns falsos cosmopolitas que não conseguem sair do seu provincianismo mental. As pessoas aperceberam-se da descarada tentativa de manipulação destas eleições.

O tratamento desigual dado pelas televisões aos diferentes candidatos merece reflexão. Segundo dados da Media Monitor e-telenews.com, publicados na edição do Expresso de 28.1.2006, o candidato Mário Soares foi quem teve mais tempo na televisão – cerca de 10 horas a mais de cobertura televisiva do que Manuel Alegre, que surgia em penúltimo da lista, apenas à frente de Garcia Pereira! Soares não pode queixar-se da cobertura mediática da sua campanha, tal como não pode queixar-se da generosidade da Eurosondagem, que “subestimou” o seu principal adversário à esquerda (extraordinária justificação esta que foi dada pelo responsável desta empresa de sondagens – ele próprio um apoiante declarado da candidatura de Soares -, que assim confessou os seus critérios “científicos”). É também curioso notar que o candidato Francisco Louçã teve praticamente o mesmo tempo de televisão e até mais 108 notícias do que o presidente eleito. Parece legítimo concluir-se que os portugueses estão cansados do seu tele-evangelismo de esquerda. Jamais, desde que há democracia em Portugal, um acto eleitoral pôs a nu um tamanho fosso entre a opinião pública e a opinião publicada. Foram os eleitores que, através dos votos depositados nas urnas, acabaram por assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas.

Apesar de todas as tentativas de censura e manipulação, a candidatura um homem livre, sem máquinas partidárias nem estrutura profissional, apoiada pela força e a esperança de muitos voluntários em todo país, fez com que o “poder dos cidadãos” saltasse dos cartazes para as urnas, ficando a décimas de uma surpresa histórica. Outro dos imponderáveis da democracia é o de por vezes as eleições exporem realidades até aí escondidas, como seja o crescente distanciamento e desconfiança dos eleitores relativamente aos aparelhos partidários e às escolhas por estes impostas. Estes partidos que temos são eles próprios um factor de empobrecimento e de afunilamento da democracia. Ainda que de modos diferentes, tanto Cavaco Silva como Manuel Alegre denunciaram a mediocridade que se apoderou dos nossos partidos. Somados tiveram cerca de 70% dos votos. Isto é o reconhecimento, pelos eleitores, de que a nossa democracia representativa está doente. Os partidos políticos estão fechados sobre si próprios e enfeudados a lógicas e a interesses cuja transparência é cada vez mais difícil de controlar. Precisam desesperadamente de um impulso de renovação e abertura que já só pode vir de fora. Não há que ter medo desta competição com os movimentos cívicos; ela é urgente e saudável, porque contribuirá para a regeneração da própria democracia representativa. 1.138.297 cidadãos perceberam isto. Mas alguns comentadores, em sintonia com outros insignes representantes do aparelhismo partidário, continuam a revelar falta de humildade democrática perante os factos.

Curiosamente, os mesmos que haviam decretado o fracasso da candidatura de Manuel Alegre apressaram-se a declarar a morte de algo cuja forma e objectivos ainda desconhecem. Pode ser que se enganem outra vez. O Movimento de cidadania em torno da candidatura de Manuel Alegre foi um fenómeno pioneiro, abrindo as portas ao reforço da democracia participativa. Em menos de três meses, este verdadeiro milagre de cidadania ficou, contra tudo e contra todos, a escassas décimas de uma segunda volta das presidenciais. Mas, como disse Manuel Alegre, “fica a lição, fica a esperança, fica o exemplo de democracia participativa e do poder dos cidadãos”. Este Movimento não se esgota nem numa só pessoa nem numa só causa. O poder dos cidadãos está aí e veio para ficar. O poder dos cidadãos é o futuro da democracia.

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